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“memória ao contrário”

“Registar / nessa memória / ao contrário /

de trás / para diante / as palavras /

e depois / soletrá-las / do fim para o princípio”

Carlos de Oliveira, Trabalho Poético

# ao contrário

Sem fim nem princípio, observe-se uma linha de forma elíptica, desenhada a carvão: é uma figura que parece suspender a linearidade e a gravidade da caligrafia (e da leitura) e representa (desenhando-o) um 0VO.

Levante-se o olhar ao encontro de duas linhas oblíquas, unidas por um ponto convergente: contraponto quase vertical da anterior figura circular, esta letra parece unir os caracteres da palavra de que é centro, OVO.

Desalinhe-se a ordem da leitura para que se possa ver “ao contrário / de trás / para diante / a[ ] palavra[ ]”. Espanto ou espelho, é uma e a mesma palavra, som a som, como eco, um anagrama: ovo/ovo. Trata-se, portanto, de uma palavra – manuscrita e desenhada –, inscrita para ser lida e vista.

Em dois tempos, aqui parece estar precisamente o coração da metáfora que este corpo orgânico (o ovo) contém. Por um lado, a representação manuscrita que lhe dá forma legível é, ela própria, circular, pois permite uma leitura inversa à da ordem linear da escrita. Por outro, a duplicação do nome (virtualmente ao infinito) – ovoovo – permite revelar, inscrita naquela continuidade sonora, o princípio da história que a exposição “Do ovo ao voo” conta. Experimental e ludicamente, o jogo verbal observado parece aclarar, então, o jogo visual de que decorre o conceito que Ricardo Barbeito entreviu na palavra e na figura do ovo.

Animovo, 2009 [Frames]. DV-PAL, 4:3. Duração: 31”. Grafite sobre papel.

# memória

Cubos como casas, casas como cubos. Tabuleiros de ovos sem ovos. Estruturas modulares e tridimensionais, de madeira e de metal, em escada. Em escala (quase) humana.

Por contraste com a unidade orgânica do ovo, que contém um embrião animal (invisível aos nossos olhos), os variados maquinismos de produção por que o ovo transita são construções engendradas (diga-se assim) artificialmente.

Nesta instalação – que pode eventualmente ser interpretada como uma (hipótese de uma) narrativa do movimento e da invisibilidade – os mecanismos, vazios, parecem aludir a uma presença dos ovos a que (não) nos é permitido aceder. Daquele passado permanecem sons e luzes, audíveis e visíveis, sombras ou halos como memória da passagem (alada) das criaturas geradas ab ovo.

# “do fim para o princípio”

Assim como no centro da palavra (reiterada) que gera a ideia desta exposição contém em si mesmo uma promessa de movimento – ovoovo –, também a presente instalação parece reenviar, sala a sala, passo a passo, para o processo (contínuo) de criação (natural e humana).

De facto, por um lado, a articulação (desencontrada no espaço) das várias peças instaladas permite pôr a nu o processo de criação avícola. Por outro, a dialogar com estas estruturas mecânicas, são expostos desenhos (a grafite) e exercícios gráficos que recorrem ao jogo visual com a palavra ovo.

Do nascimento e da eclosão permanecem rastos (cascas) que contêm a memória do embrião e vestígios do voo. Ou, melhor, em caminho inverso –  “do fim para o princípio” – do voo, iniciado, invisível, ao ovo, permanecem apenas fragmentos, única realidade material deste processo.

Como se fosse impossível acompanhá-lo em tempo real ou interromper o devir criativo, a mão (a arte) representa o que na natureza muda (voa). Tal como o traço desenhado é único e irrepetível, assim cada recorte em cada casca de ovo é aleatório e diferente de qualquer outro. Talvez aqui se encontrem natureza e arte, no que têm de singular e original.

Diana Pimentel

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